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Regresso ao seio materno
Noticia adicionada à base de dados do Dentaria.com a 2002-12-03


É fácil dizer que amamentar é um acto natural e biológico. Mas quando chega a altura, as dúvidas surgem e a segurança perde-se. Nesses momentos, muitas mulheres dariam o seu «reino» pelo conselho de uma mãe experimentada ou um apoio que lhes devolvesse a confiança. A Liga La Leche chega a Portugal justamente com esse intuito.


Na sala de condomínio de uma casa no Restelo, um grupo de mães vai chegando, com as respectivas «crias», a conta-gotas. A reunião tinha hora (indicativa) de chegada para as três da tarde de uma quinta-feira, mas o normal é «ir-se chegando» - que isto de ser mãe é um «full-time job», quanto mais quando acumula com outras tarefas... Os sofás estão dispostos em quadrado, virados uns para os outros, num convite ao diálogo.

Cristina Leite Pincho, 33 anos, mãe de cinco a tempo inteiro, acomoda-se num deles. É a líder da Liga La Leche em Portugal, uma associação que apoia uma boa relação entre mãe e filho através do aleitamento materno. É ela que vai moderar a reunião.

Vem com Daniel, o seu quinto filho - e o mais novo -, um «diabinho» com cara de anjo e caracóis louros. Cristina amamentou os seus cinco filhos, de forma cada vez mais prolongada: a primeira mamou até aos oito meses; o segundo, até aos 14; «o último, o Daniel, tem dois anos e ainda mama». Assume sem complexos que dá de mamar ao filho mais novo «não por motivos alimentares, mas por motivos afectivos». Este é o aspecto que considera que, tanto médicos, como mães, mais vezes esquecem. «Amamentar é muito mais do que alimentar uma criança», diz ela, para quem a expressão inglesa «mothering» é a que melhor traduz o acto de dar de mamar.

A toda a gente que olha com estranheza para crianças mais velhas que mamam - algumas pessoas até acusam as mães de estar a «instigar-lhes maus hábitos» - Cristina recomenda a leitura da resolução da Organização Mundial de Saúde sobre o assunto: a OMS recomenda que se dê de mamar até aos dois anos - e até aos seis meses em exclusividade. «Fá-lo, também, com base em razões médicas», explica. «Até essa idade, o sistema nervoso central está a desenvolver-se, e o leite materno possui ácidos gordos que propiciam essa formação. Mas os bebés têm uma enzima para digerir o leite da mãe até aos quatro anos», afiança. Talvez esse seja um indício de que não há nada de errado em dar de mamar até esta idade.

Para quem receie que amamentar até tarde crie uma dependência excessiva dos bebés em relação às mães, estas asseguram que as suas crianças são perfeitamente autónomas, autoconfiantes e com uma boa auto-estima. «E isso tem que ver com a amamentação e com a proximidade que ela dá», completa Marie-Lizzeth Hourcade, uma engenheira química francesa, mãe de um menino de 14 meses, que entretanto acabou de entrar. Pouco a pouco, as mães começam a chegar. A reunião pode iniciar-se.

O tema de hoje é a chegada do bebé a casa e a gestão dessas expectativas. Seis mães estão presentes: Susana Rebelo, 31 anos, engenheira de materiais, mãe de dois - uma menina de quatro, e grávida de 20 semanas, de um rapaz; Sofia Seca, 26 anos, bióloga, mãe de dois - um de três anos e meio e outro de oito meses; Isabel Rute Reinaldo, 37 anos, professora de filosofia, mãe de seis - de 11, 10, 8, 5, 4 anos e cinco meses; Marie Lizzeth Hourcade, 29 anos, engenheira química, mãe de um rapaz com 14 meses; Nicole Cruzinha, 30 anos, professora de Inglês, mãe de uma menina de dois meses; e Cristina, 33 anos, mãe de cinco - de 11, 9, 7, 4 e 2 anos. No fundo, este é um espaço de partilha. Aqui tiram-se dúvidas, trocam-se experiências, convive-se. Ou tão simplesmente, para as mães em licença de parto, vêem-se outras caras que não a do seu bebé...

É o caso de Nicole, uma norte-americana a viver há cinco anos em Portugal. É a sua segunda reunião. Soube da sua existência através de uma amiga - embora a mãe, nos EUA, já lhe tivesse falado na Liga La Leche. As reuniões a meio da semana - que para quem trabalha, podem ser complicadas de assistir - são para ela, ainda em licença de parto, fundamentais. O marido trabalha, a sogra não está com ela, a mãe vive nos EUA, ela fica sozinha com a filha o dia todo. «Não tenho um minuto para mim», confessa. Estes encontros ajudam-na a perceber que não é a única a passar pelos mesmos problemas. Além disso, «quando uma pessoa está sozinha em casa, não fala com ninguém, não tem nenhuma conversa inteligente», afirma.

Susana Rebelo lembra que a sua experiência de amamentar foi muito mais complicada do que alguma vez supôs. Não deixou sequer que, na maternidade, dessem o primeiro biberão à filha. «Achei que era importante.» Pensava que dar de mamar ia ser fácil, que ia ser a coisa mais natural do mundo, que ia ser uma óptima mãe... E afinal, a experiência revelou-se bem mais difícil. «Eu jorrava leite a dois metros de distância, a bebé não mamava mais que três minutos e meio, ninguém me ajudava... As minhas primas não tinham amamentado, a minha avó também não, a minha mãe já não se lembrava...»

Isabel Rute Reinaldo amamentou todos os seus filhos - alguns até aos dois anos e tal, um deles até aos quatro. Garante que, se não soubesse exactamente o que queria fazer - queria amamentar em exclusividade até aos seis meses -, teria passado muito tempo na corda bamba. Não só pelas pessoas - cada qual dita a sua sentença -, mas também pelos médicos e enfermeiras, que empurram facilmente para os suplementos vitamínicos. No fundo, é aquilo que Iolanda Sousa, 35 anos, mãe de dois, outra das mães que a Liga ajudou, resume da seguinte maneira: «Não se pode dizer que haja médicos avessos ao aleitamento materno, mas se o bebé não aumenta 200 gramas por semana, entram logo os suplementos e o biberão... e isso estraga imediatamente o equilíbrio entre a procura e a oferta.»

Na verdade, Teresa Santana Félix, enfermeira especializada em Saúde Materna e Obstétrica e coordenadora da linha SOS Amamentação, explica: «Os movimentos que o bebé faz com a boca quando está em contacto com a mama ou com a tetina do biberão são totalmente diferentes.» Mamar na tetina é muito mais fácil para a criança que, depois, tem dificuldades em habituar-se de novo à mama. «Este é um dos erros que muitos profissionais de saúde (nomeadamente as enfermeiras que dão biberão nas maternidades) cometem», afirma.

Margarida Fernandes chega no fim da reunião. Tem 35 anos e é bióloga. É também voluntária da Linha SOS Amamentação, desde que, recentemente, fez a formação. Foi mãe há 15 meses, de uma menina, que continua a amamentar. Decidiu voluntariar-se porque a sua experiência foi enriquecedora. O que não a impede de reconhecer que existem vários momentos de crise: «No início, nomeadamente, até se regularizar o aleitamento entre a mãe e a criança; e depois, os momentos de ajustamento do bebé, por causa do seu próprio crescimento.»

Margarida teve conhecimento da Liga La Leche ao frequentar o curso de preparação para o parto da psicóloga e fisioterapeuta Graça Mexia, quando ouviu Cristina Leite Pincho falar sobre amamentação. Deu de mamar nos lugares mais variados e garante que nunca sentiu hostilidade por parte de ninguém, mas recorda que a maior parte dos sítios não está preparada para ajudar as mães a amamentar. Lembra que em muitos centros comerciais existem fraldários, mas não há uma cadeira para uma mãe se sentar a dar de mamar.

A bióloga considera que este acto nem sempre é fácil, «porque na nossa sociedade se perdeu o culto de partilhar a maternidade. Antes, a família era alargada: primas, tias, irmãs e avós viviam juntas, e davam de mamar umas em frente às outras». Margarida acredita ainda que, no nosso país, algumas mulheres da classe média alta têm mais dificuldade em reunir as condições para amamentar, «porque há uma grande pressão para voltar à carreira profissional, ou porque o empregador não facilita a vida às mães». «Conheço pelo menos dois casos assim», diz. E lembra: «O 'stress' é o inimigo número um da prolactina, a proteína produzida pelo leite materno.»

Margarida ressalva que «os bebés também mamam por consolo». Mas isso não tem que ser negativo. «Quanto mais dependente for a criança na sua infância, mais probabilidades terá de ser independente em adulto, com uma maior auto-estima e confiança», defende. O pediatra Mário Cordeiro não partilha da mesma opinião. Considera que a autonomia se constrói desde o nascimento - e não só na adolescência. Para ele, independentemente das condicionantes de cada caso, o ideal é amamentar seis meses. Depois disso, «podem criar-se dependências nos dois sentidos e culpabilizações, que são dispensáveis». O médico acredita ainda que algumas mães podem ter tendência para prolongar o processo da amamentação como forma de fazer durar «o efeito bebé».

Cristina Leite Pincho lidera a Liga La Leche portuguesa, que reúne mensalmente
Para Mário Cordeiro, o mais importante é que tanto a mãe como a criança se sintam bem e estejam saudáveis e felizes. «Não sou um fundamentalista», assegura. Se amamentar for para a mãe uma provação ou for difícil de conciliar com a sua vida diária, não lhe parece criminoso pôr o aleitamento materno de parte. «Se uma mãe que tem de dar de mamar de três em três horas sente que já não tem vida nem identidade própria, ou tempo para passear, o biberão é uma alternativa perfeitamente aceitável.» Afinal, «amamentar não é uma lei, nem se é má mãe se não se der de mamar.» Além disso, «pode dar-se um biberão com o mesmo carinho com que se amamenta», diz. Quanto à recomendação da OMS, o pediatra acredita que esta visa o mundo inteiro - no qual se incluem os continentes africano e sul-americano, onde o leite materno é de facto o mais seguro para o bebé - e não especificamente o mundo ocidental, no qual Portugal se insere.

O médico reconhece que o papel de Ligas e Linhas é importante sobretudo para dar um acompanhamento imediato e prático às mães que têm dúvidas. Considera que há muita falta de informação e faz-lhe muito mais confusão que haja mães que ainda não saibam por exemplo que, com a subida do leite, ao sexto dia, é natural terem febre - não é porque tenham qualquer tipo de infecção. Explica que «o leite fraco é um mito. O leite nos primeiros dias é suposto ser uma aguadilha». Se a mãe tem pouco leite, o mais provável é que seja «stress», e o melhor é mesmo pôr o bebé a mamar mais vezes, para estimular a sua produção. Enquanto a criança mamar, a mãe produz sempre leite.

Mário Cordeiro não tem qualquer dúvida quanto ao facto de o leite materno ser o melhor alimento para o bebé. «Por três razões, fundamentalmente: primeiro, porque tem proteínas humanas, ao contrário do leite artificial, que tem proteínas de vaca - as principais causadoras de alergias. Depois, porque tem matérias vivas, que transmitem imunidade ao bebé. Finalmente, porque o leite materno modifica-se diariamente, à medida das necessidades da criança - adapta-se naturalmente, coisa que o leite artificial não faz. Há ainda um aspecto curioso, de que se fala pouco: o leite materno tem sabor e cheiro diferentes, que variam - e isso é importante porque os bebés estão numa fase da sua vida em que funcionam à base dos cinco sentidos.»

A moda do biberão, que teve o seu grande «boom» nos anos 60, coincidindo com o feminismo - que afirmava querer libertar-se da «escravatura do peito» - só começou a conhecer uma tendência decrescente a partir do fim da década de 80, início de 90. Em 1999, um estudo realizado em seis freguesias do nosso país apurava que 99% das mães declaravam ter intenção de amamentar e que 95% o fazia. Hoje, existe um claro retorno ao seio materno, apesar de, como salienta Teresa Santana Félix, «no nosso país nunca se verem mães VIP a amamentar, mas poderem ver-se a dar biberão». A par da questão social ou «politicamente correcta», existe também a pressão familiar: os pais e os avós preferem muitas vezes o biberão porque assim, eles também podem dar.

Na Liga, ninguém se assume como fundamentalista do aleitamento materno. Ali, acredita-se que «a amamentação é uma arte que requer aprendizagem e, tal como o parto, corre muito melhor com preparação, conhecimento e encorajamento». Além disso, considera-se que cada bebé é único. Como no universo dos adultos, cada criança é um mundo, individual. Cada caso é um caso. Não há um só padrão.



Liga La Leche

Em 1956, sete mães americanas pediram o nome emprestado a um altar na Florida dedicado a uma santa (Nuestra Señora de la Leche Y Buen Parto) para fundarem uma liga de entreajuda onde se abordassem os problemas da amamentação. A Liga La Leche Internacional é, hoje, uma associação sem fins lucrativos que «apoia e incentiva uma boa relação mãe-filho através do aleitamento materno». Actualmente, é considerada uma das autoridades mundiais em matéria de amamentação. A sua acção estende-se através de uma rede constituída por mais de 10.000 mães voluntárias. Existe em mais de 50 países, de Israel à Geórgia, da Colômbia à Nova Zelândia, do Gabão às Bermudas, do Japão à Áustria.

A Liga é representada localmente por líderes - mães que tiveram uma experiência feliz a amamentar e que receberam formação para terem as acreditações necessárias ao exercício das suas funções. No nosso país, quem desempenha esse cargo é Cristina Leite Pincho, mãe - de cinco - a tempo inteiro. Esta modera a reunião mensal - que, por enquanto, decorre apenas em Lisboa, no Restelo, embora o objectivo da Liga seja formar vários grupos, a nível nacional -, fornece bibliografia sobre os diversos temas que interessam às mães, oferece ajuda telefónica - e por vezes, desloca-se mesmo a casa das mais aflitas. Nas reuniões, abordam-se temas como as vantagens do aleitamento materno, a chegada do bebé a casa e a gestão das expectativas, as dificuldades mais comuns, nutrição e desmame. Tiram-se dúvidas práticas sobre como amamentar bebés prematuros, gémeos, como extrair manualmente o leite, o que fazer para o ter ou para aumentar a sua produção, problemas com mamilos invertidos, o regresso ao trabalho e o choro do bebé. As mães expõem as suas dúvidas e preocupações e, se calhar mais importante que tudo isso, convivem com outras mães que amamentam, recuperando assim o hábito - um pouco perdido, nos dias de hoje - de partilha da maternidade.

Em Portugal, a Liga La Leche dá agora os seus primeiros passos - apesar de as diligências necessárias ao arranque já terem sido dadas há cerca de ano e meio. Qualquer pessoa pode ser membro, mediante o pagamento de uma quota anual - de 30 euros, com «newsletter», ou de 12 euros, sem ela. A partir daí, passa-se a poder beneficiar de tudo aquilo já mencionado - mas, sobretudo, do que a organização define como «mais de 40 anos de experiência a ajudar milhares de mães».

Site: www.lalecheleague.org

Contactos: Cristina Leite Pincho: 965795294




Linha SOS Amamentação

Existe desde Dezembro de 1998, «para ajudar as mães a identificar e a ultrapassar as dificuldades ligadas à amamentação». Quem ligar o 213880915, a qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, vê a sua chamada reencaminhada para o telemóvel de um dos 30 voluntários desta linha - que em caso de necessidade extrema até se deslocam a casa. São já uma média de 11 telefonemas diários, vindos um pouco de todo o país, que preenchem o tempo e a disponibilidade de mães e enfermeiras solícitas, formadas em Aconselhamento em Aleitamento Materno.

Mas não são só as mães que telefonam. Cerca de um terço dos telefonemas são feitos pelo pai ou pelas avós, garante-nos a coordenadora, Teresa Santana Félix. Teresa coordena a SOS Amamentação, juntamente com Cristina Leite Pincho e Isabel Rute Reinaldo, desde que a linha existe. A enfermeira de 38 anos - que também é professora da Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende e mãe de uma menina de quatro anos - recebeu formação em aleitamento materno quando trabalhava no Hospital São Francisco Xavier. Depois, deu formação na Linha Saúde 24 Pediatria (conhecida como «Dói dói, Trim trim») e conjugou esforços com Cristina Leite Pincho, líder da Liga La Leche em Portugal, e com Isabel, para tirar todo o tipo de dúvidas relativas aos problemas próprios ao aleitamento materno.

A linha surgiu da necessidade de preencher um vazio informativo em relação à amamentação, nomeadamente, a nível prático. As queixas mais comuns das mães são o ingurgitamento mamário (tumefacção da mama, que se resolve pondo o bebé a mamar com muita frequência), a «má pega» - a criança não mama de forma correcta - e fissuras nos mamilos - maleita, aliás, decorrente da pega incorrecta. A SOS Amamentação é financiada pela Unicef, mas os voluntários cumprem o seu papel por puro amor à camisola: os reencaminhamentos para os telemóveis - que atendem, mesmo de madrugada -, a gasolina e os selos do correio saem-lhes do bolso, apesar de tudo isso se desvanecer perante a noção de que «o 'feedback' é muito positivo».




autor Katya Delimbeuf
in Expresso
www.expresso.pt

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